21 de Outubro de 2018

Fragrâncias - Fisgado pelo nariz

Edicao Atual - Fragrâncias - Fisgado pelo nariz

Editorial

O “Ano do Tigre” 

A milenar sabedoria chinesa diz que 2010 será um ano explosivo, pois tudo que ocorrer, de mau ou de bom, será em escala superlativa e elevado ao extremo. Os nervos estarão exacerbados, portanto, será a época de valorizar a diplomacia. Afinal, estamos no “Ano do Tigre”.

Parece que a profecia está se tornando realidade. O ano já começou com a tragédia do Haiti e a crise econômica na Europa.  

No Brasil, a economia ainda está se recompondo, entretanto, não tem dado sinais de que 2010 marcará a inflexão da curva de estabilidade e irá tomar a ascendente de crescimento e sucesso. Se, por um lado, há o otimismo explícito de crescimento, mostrado no Balanço Econômico, promovido por esta revista, com a opinião de empresários do Setor, e publicado nesta edição, por outro lado, já se lê nos jornais previsões de retomada do aumento da taxa Selic – a ferramenta preferida pelo governo para controlar a inflação de demanda, freando o crescimento da economia.

Esta Cosmetics & Toiletries (Brasil) apresenta novidades para os farmacêuticos de manipulação, considerável parcela de leitores desta revista. A partir desta edição, passarão a ser publicadas a coluna “Manipulação Cosmética,” assinada pelo competente farmacêutico Luis Antonio Paludetti, e a seção “Atualidades Anfarmag” – mais um canal de comunicação da Anfarmag com os farmacêuticos de manipulação.

A seção Persona faz destaque em memória de Ruy Barreto, um cientista de muitas vocações, cujas pesquisas com algas marinhas brasileiras representam um marco para o desenvolvimento da indústria de cosméticos.

Nos artigos técnicos, o leitor tomará conhecimento de novidades sobre o uso de tecnologia no tratamento de celulite, de um hidratante que utiliza estratégia tridimensional e de um óleo da biodiversidade amazônica, conhecido na Colômbia, para tratamento no antienvelhecimento. 

Boa leitura!  

Hamilton dos Santos
Editor

Umectantes e Hidratantes - Hamilton dos Santos Editor da Cosmetics & Toiletries (Brasil), São Paulo SP, Brasil

Um dos benefícios mais frequentes, principais ou secundários, prometidos pelos produtos cosméticos é a hidratação. Neste artigo de revisão são relembrados aspectos da fisiologia da pele, aspectos da pele seca e mecanismos de hidratação.

Uno de los más frecuentes beneficios, menor o mayor, prometido por los cosméticos es la hidratación. En este artículo de revisión se recuerdan aspectos de la fisiología de la piel, los aspectos de la piel seca y los mecanismos de hidratación.

One of the more frequent benefits, minor or major, promised by cosmetics is hydration. In this review article are remembered aspects of skin physiology, aspects of dry skin and mechanisms of hydration.

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Óleo de Patauá como Ativo Antienvelhecimento - John Jiménez, Alba Lucía Valenzuela, Paola Alfonso, Lina Bonilla Belcorp - Centro de Inovação e Desenvolvimento, Tocancipá, Colômbia

Neste trabalho, os autores têm como objetivo estabelecer uma estratégia metodológica, com base nos três pilares do desenvolvimento sustentável (justiça social, responsabilidade ambiental e viabilidade econômica), que permita avaliar o óleo de patauá como nova matéria-prima cosmética.

En ese trabajo los autores tienen como objetivo establecer una estrategia metodológica con base en los tres pilares del desarrollo sostenible (justicia social, responsabilidad ambiental y viabilidad económica) que permita evaluar el óleo de seje como nueva materia prima cosmética.

In this paper the authors aim to establish a methodology and bases in the three pillars of sustainable development (social justice, environmental responsibility and economic viability) to assess the “pataua” oil as a new cosmetic raw material.

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Novo Hidratante com Estratégia Tridimensional - Anne-Laurie Rodrigues, Olga Freis, Louis Danoux, Christine Jeanmaire, Mélanie Sabadotto e Andreas Rathjens Laboratoires Sérobiologiques (Divisão Cognis), Pulnoy, França

Neste artigo são relatadas as propriedades e o mecanismo de um novo ingrediente indicado para produtos cosméticos hidratantes. Os autores se reportam à forma tridimensional para reestruturar as funções do estrato córneo proporcionada por esse ingrediente: diferenciação dos queratinócitos, efeito na expressão da junção oclusiva e efeito na regulação da homeostase lipídica.

En este artículo se informa acerca de las propiedades y el mecanismo de un nuevo ingrediente para cosméticos hidratantes. Los autores reportan la forma tridimensional para reestructurar las funciones del estrato córneo proporcionadas por eso ingrediente: la diferenciación de los queratinocitos, el efecto sobre la expresión de la junta oclusiva y el efecto en la regulación de la homeostasis de los lípidos.

In this paper we report the properties and mechanism of a novel ingredient for cosmetic moisturizers. The authors report the three-dimensional shape to restructure the functions of the stratum corneum provided by this ingredient: differentiation of keratinocytes, the effect on expression of junction and occlusive effect on the regulation of lipid homeostasis.

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Celulite: Tecnologias na Batalha contra a “Casca de Laranja” - Karl Lintner, PhD Sederma SAS, Le Perray-en-Yvelines, França

Este artigo foca a estrutura da celulite e examina materiais que se proclamam capazes de agir em sua aparência, por meio de mecanismos como lipólise, diferenciação celular, drenagem e reversão celular.

Este artículo se centra en la estructura de la celulitis y examina los materiales que dicen ser capaces de afectar su apariencia a través de mecanismos tales como la lipólisis, la diferenciación celular, el drenaje y la inversión de la célula.

This article focuses on the structure of cellulite and examines materials that claim to affect its appearance via mechanisms such as lipolysis, cell differentiation, drainage and cell reversal.

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Emiro Khury
Assuntos Regulatórios por Emiro Khury

O que nos reserva 2010?

Esta é a primeira coluna de 2010. Junto com os votos de renovadas esperanças em um futuro promissor não tão distante, gostaríamos de compartilhar com nosso leitor expectativas de que este ano será muito produtivo.

Do ponto de vista da legislação, o Planeta continua tornando-se cada vez menor, o que, conforme nossa perspectiva, torna o mercado cada vez maior para nossos produtos.

Certamente dá cada vez mais trabalho acompanhar as alterações na legislação de inúmeros países e analisar seu possível impacto nos negócios, mas isto faz parte da evolução do nosso setor.

E o novo ano se inicia com a publicação de dois pareceres da Câmara Técnica de Cosméticos (Catec), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Um parecer proíbe o uso da vitamina K em cosméticos; outro determina que o uso de terebintina em fragrâncias passa a ser permitido somente quando a concentração de peróxido for reduzida a um teor inferior a 10 milimoles por litro.

Na agenda regulatória nacional encontramos, em destaque, a reunião do Mercosul, que está marcada para março próximo, e na qual deverão ser discutidas as bases para a atualização da regulamentação de protetores solares e da lista de substâncias de uso proibido em cosméticos, e a atualização da resolução que trata das normas de boas práticas de fabricação e controle. A nova regulamentação de protetores solares possivelmente deverá contemplar alterações na designação de categoria de produto, por meio da atualização das faixas de fatores de proteção solar, estendendo o valor superior para 50 ou 60. Além disso, esperamos alterações nas metodologias recomendadas para determinação do FPS e também do nível de proteção UVA, na medida que as atualizações forem adotadas nas regulamentações internacionais. Novas definições para as regras de rotulagem de protetores solares também poderão fazer parte da nova resolução.

Enquanto isto, durante a mudança do calendário de 2009 para 2010, a Comissão Europeia ratificou a proibição do uso de óleo de verbena (Lippia citriodora Kunth) em produtos cosméticos, e a permissão de uso de até 0,2% do absoluto deste óleo. Também publicou consulta pública sobre os ingredientes chloroacetamide e dichloromethane, tentando recolher dados para verificar a possibilidade de reclassificar estes ingredientes, que atualmente são considerados carcinogênicos ou mutagênicos.

Ainda na Europa, este novo ano promete desafios para as empresas que estão sob fogo cruzado pelas entidades de consumidores que reclamam da chamada “propaganda enganosa” realizada por anunciantes de produtos cosméticos.

Essas entidades questionam as imagens usadas nos anúncios do tipo “antes e depois” e as instituições reguladoras dessas propagandas recomendam às empresas usarem somente imagens representativas dos reais resultados que podem ser alcançados pelo uso do produto.

Na esfera dos produtos cosméticos naturais ou orgânicos, aguardamos as repercussões da publicação das novas regras de certificação dos padrões Cosmos (União Europeia) e NaTrue (EUA), que certamente irão ajudar muito a clarear os horizontes de quem produz esses tipos de produtos cosméticos.

Em tempos de crise, descomplicar regras de mercado torna mais fácil investir em novas ideias e novos lançamentos.

No Brasil, as boas novas para os cosméticos naturais ou orgânicos vêm com a notícia de que nossas certificadoras já estão capacitadas a atuar sob as novas regras internacionais, o que facilita o desenvolvimento de produtos brasileiros mais competitivos em qualquer mercado.

Antonio Celso da Silva
Embale Certo por Antonio Celso da Silva

O que esperar de 2010

Foi-se o ano de 2009, o que nos deixou aliviados.

Houve alívio porque o cenário que se desenhava no início do ano que passou desanimava até os mais otimistas. Entre os tsunamis e as marolas da crise, nosso presidente da República apostava nas marolas e incentivava o povo a gastar. O resultado parecia óbvio: mais consumo, mais necessidade de insumos, mais produção, mais emprego e assim, o círculo virtuoso se fecharia. Faltava o povo acreditar nisso. No começo desconfiado, mas depois vendo resultados, o povo atendeu a essa ordem.

A catástrofe, concentrada nos setores financeiro, automobilístico e imobiliário, na verdade, desta vez estava nas mãos dos países considerados mais experientes e desenvolvidos, e os emergentes, notadamente os asiáticos, pareciam viver em outro planeta.

Por aqui, o setor cosmético mostrava sua força e repetia o feito de crescer durante uma crise. Veio o primeiro semestre, e tome quase 20% de crescimento (dados da Abihpec). Está certo que mais da metade desse índice era creditado às gigantes da venda direta. As empresas de franquia “foram nesse embalo” e, mais uma vez, sobrou a menor parte para o sofrido varejo.

E o setor de embalagens? O que vimos foi a repetição dos mesmos problemas a que estamos cansados de assistir e com os quais também já cansamos de conviver.

O setor de cartonagem, de onde saem cartuchos, caixas de embarque, rótulos, etiquetas, bulas e boa parte do material promocional, cresceu muito, com empresas cada vez mais competentes, seja considerando o aspecto qualidade, seja levando em conta o aspecto inovação. Por causa disso, as empresas de cosméticos do Brasil esqueceram o mercado externo, o que só deixou de acontecer com as globalizadas, que não necessariamente concentram suas compras no País. Talvez a crise não tenha afetado tanto esse setor porque o principais insumos da cartonagem estão aqui mesmo no Brasil, não havendo necessidade de importá-los.

O setor de plástico, um dos mais importantes para o segmento cosmético, de onde saem frascos, tampas, potes, bisnagas, estojos, rótulos e sleevers, sofreram muito, em 2009, com os constantes aumentos de preço do principal insumo que utiliza, pois boa parte é importada. Como resultado disso, algumas pequenas e médias empresas transformadoras ainda estão passando ou passaram por sérias dificuldades financeiras. O fechamento de algumas, a venda ou fusão de outras e o desabastecimento do setor cosmético ocorreram notadamente no terceiro trimestre do ano passado.

O setor vidreiro repetiu o que se vê ano a ano, haja ou não crise: pouca opção de modelos. As empresa de cosméticos só escapam disso se tiverem moldes próprios, o que demanda tempo, custo e grandes quantidades. O mercado brasileiro está praticamente nas mãos de uma única empresa que atende nosso setor, e o resultado disso é que a mesma “novela” continua: primeiro ela produz os grandes volumes, para atender grandes clientes e, só na sequência, atende outros.

Pior do que isso é o trabalho de decoração em vidro, fundamental para o produto cosmético. O nosso setor paga mais por esse serviço que o farmacêutico, por exemplo, mas exige diferencial, beleza. Em 2009, a briga por um espaço nas máquinas de decoração das poucas empresas que abastecem o setor mais parecia o salão do antigo pregão das bolsas de valores, ou seja, para ser atendido, tinha-se de gritar bem mais alto que os outros clientes.

Não estou criticando as empresas, mas relatando a realidade e as dificuldades do nosso setor com os olhos de quem vive o cotidiano de uma empresa de cosméticos e ouve o mercado, por meio de seus representantes ou mesmo no dia a dia da entidade da qual faço parte, como diretor. Ressalto que boa parte desse mercado é formado por centenas, talvez milhares de pequenas empresas, que são as que mais sofrem.

Enfim, nesta primeira coluna do ano me propus a fazer um balanço do que vivemos no ano passado em relação às nossas embalagens. Talvez alguém discorde do que eu disse, mas procurei relatar o que vi, ouvi e vivi.

E 2010? O que podemos esperar dele? Se eu pudesse dar um conselho a quem fabrica embalagens, diria-lhe para investir em treinamento e atualização de seus técnicos, na modernização de seu parque industrial, e, acima de tudo, que acreditasse no crescimento do setor.

Hoje, no mundo, o Brasil é o terceiro maior consumidor de cosméticos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão. Baseando-me no que vi no final do ano passado e no que já está sendo pintado nesse início de ano, acredito que vamos passar a ser o segundo país que mais consome cosméticos, o que nos fará produzir muito para atender à demanda.

Se não houver embalagens produzidas aqui no Brasil, não tenho dúvida de que o setor vai atropelar as empresas produtoras desses insumos e trazê-los de fora. Caso isso ocorra, vamos ter de assistir mais uma vez à invasão dos asiáticos, o que será uma pena.

Wallace Magalhães
Gestão em P&D por Wallace Magalhães

Princípios fundamentais do desenvolvimento de formulações

O desenvolvimento de formulações é uma atividade de alta complexidade, com implicações tecnológicas e regulatórias, e por isso, sua realização deve seguir um padrão funcional claramente estabelecido.

É vasto o número de publicações sobre matérias-primas, ativos, tendências, normas regulatórias e até apelos mercadológicos, mas praticamente nada se fala sobre os fundamentos e os princípios de operação e gerenciamento do desenvolvimento de formulações cosméticas.

O conhecimento e a aplicação destes elementos é fator determinante do nível de competência e sucesso, do profissional e da própria empresa. Erros, atrasos, trabalhos que precisam ser refeitos, desperdícios, extravios de documentos, distorção de informações e alto nível de estresse – com o inevitável desgaste das pessoas - são algumas das conse¬quências da adoção de padrões inadequados ou incompletos. A definição de um padrão planejado independe do porte da empresa, porque a não formalização significa a adoção de um padrão aleatório ou caótico, com grandes possibilidades de gerar resultados ruins.

MP e PF do P&D

O desenvolvimento de formulações é um caso típico no qual a informação é a “matéria-prima” e o “produto final”. As amostras de ingredientes e de formulações preparadas são, obviamente, partes integrantes e essenciais do trabalho, mas definitivamente não representam o início e o final do processo. A amostra de uma substância ou blend, por si só, não possibilita sua correta utilização. Por isso, fornecedores disponibilizam grande volume de informações sobre as matérias-primas e suas aplicações. Da mesma maneira, a amostra preparada no laboratório somente tem valor quando, no mínimo, houver informações que permitam sua reprodução. Desta forma, o conteúdo e a forma de arquivamento e recuperação das informações devem ser preocupações fundamentais do responsável pelo setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Assim fica demonstrado um princípio fundamental básico: a gestão da informação!

Gestão da informação

É interessante quantificar o volume de informações envolvidas no trabalho do P&D. Se fizermos a avaliação de uma linha com 300 produtos, é fácil concluir que teremos mais de 7000 documentos envolvidos neste processo, alguns recebidos de fornecedores e outros gerados pela atividade de desenvolvimento e regularização. A maior parte de informações envolve o P&D e isto comprova a tese de que o P&D é, ao mesmo tempo, uma “fábrica” e um “depósito” de informações. Uma preocupação muito justificável é a de evitar que os técnicos se tornem escravos desta situação, ocupando a maior parte do seu tempo com atividades burocráticas. Será inevitável utilizar recursos de informática e, como em qualquer outra atividade, esta escolha irá afetar frontalmente o grau de eficiência e segurança do departamento.

No que diz respeito à informação, para os propósitos do P&D teremos de equacionar não somente o arquivamento, mas também a geração e a recuperação de dados. Desde o advento da informática, o uso do papel em documentação técnica somente se justifica se tiver caráter temporário ou protocolar. O caráter temporário aparece na geração de um relatório ou uma ordem de serviço.

Armazenar informações técnicas e gerenciais somente em papel é altamente arriscado e improdutivo, pois não existe a possibilidade de se obter cópias com o mesmo perfil de segurança que possuem os arquivos eletrônicos, além disso, é alto o risco de dano e extravio.

Outro motivo da inadequação de se produzir informações no papel é que estas ficarão imobilizadas sob o aspecto de processamento, não sendo possível seu pronto reaproveitamento ou realinhamento em um novo arranjo, como no caso de um relatório. Gerar um documento ou realizar uma pesquisa com informações armazenadas em papel é muito trabalhoso, consome muito tempo e apresenta alta possibilidade de erros. Por outro lado, obrigações protocolares, muitas vezes, exigem que as informações sejam armazenadas em documentos impressos.

Quem usa esta justificativa para validar o uso de papel como única forma de armazenar informações comete um equívoco primário, ao negligenciar o fato de que esta obrigação não resolve a questão da segurança nem da disponibilidade dos dados, o que pode deixar importantes informações tecnológicas ou regulatórias imobilizadas e em situação de alta vulnerabilidade. Sabe-se também que a tendência é a redução dos documentos exigidos em papel.

Informação em papel, só em revistas, jornais, livros e publicidade. Por enquanto!

Luis Antonio Paludetti
Manipulação Cosmética por Luis Antonio Paludetti

O desafio da arte

Numa concessionária de automóveis:

- Por favor, eu quero um carro.

- Então você veio ao lugar certo! (“Afinal, estamos em uma concessionária,” pensou o vendedor).

- Eu quero um carro com ar-condicionado, direção e airbag.

- Tenho um modelo com ar-condicionado, direção, airbag e câmbio automático.

- Poxa, mas não quero um carro com câmbio automático... Gosto de dirigir com mais esportividade.

- Bom, sem câmbio automático eu só tenho um carro sem airbag.

- Então está bem. Vou ficar com o carro sem airbag, mas com ar-condicionado e direção.

- Ótimo. Em qual cor você quer?

- Quero um carro vermelho metálico.

- Bom, metálico eu só tenho prata, cinza e marrom...

- Poxa vida, eu sempre tive carros da sua marca, mas assim está ficando difícil...

- Não, você não precisa mudar de marca. Vamos fazer assim: Na cor vermelho metálico eu tenho um modelo completo, com airbag, câmbio automático, direção e MP3, além do trio elétrico...

Tudo bem... Esta é uma revista que fala de cosméticos, não sobre carros.

Mas... Coloque-se no lugar dos personagens e pense que você está em uma loja de cosméticos. Ou então, coloque-se no lugar de um consumidor que se vê diante de uma gôndola de um supermercado tentando avaliar – observando a infinidade de itens para o tratamento dos cabelos – qual destes seria o melhor produto para seus cabelos em particular.

Esta situação é muito parecida. Em muitos casos, o consumidor acaba comprando um cosmético que não “cai como uma luva” para ele, mas opta por aquele cujo resultado se aproxime mais do que ele deseja. Muitos consumidores adquirem dois ou três produtos para que um compense as lacunas do outro.

Ponderando sobre essas situações, como, então, satisfazer exatamente as necessidades dos pacientes? E mais: nos casos em que o paciente esteja submetendo-se a um tratamento dermatológico, como tratar uma condição de pele ou cabelos, proporcionando-lhe não só eficácia no tratamento, mas também o conforto e a beleza proporcionados pelos cosméticos?

Diferentemente da indústria automobilística, os pacientes podem contar com estabelecimentos que podem preparar cosméticos de tratamento de modo personalizado e com excepcional qualidade técnica. Estes estabelecimentos são as farmácias com manipulação.

Segundo a atual legislação brasileira, essas farmácias podem preparar produtos dermatológicos com a finalidade cosmética e de tratamento, desde que sejam prescritos por um médico. O farmacêutico pode – e deve – adequar os veículos e as quantidades às necessidades individuais dos pacientes, para obter maior individualização do tratamento, o que proporciona eficácia e satisfação.

Entretanto, para que o farmacêutico possa atingir estes objetivos, é necessário superar alguns desafios.

Para tanto, o primeiro passo é conhecer precisamente os ativos prescritos, em particular suas características de concentração de uso, o pH de uso e a melhor estabilidade, as incompatibilidades químicas e físicas, e os veículos recomendados. Um aspecto essencial na personalização é que as concentrações de uso podem ser bem maiores do que as utilizadas na indústria cosmética, o que – dentro de limites especificados – traz maior expressão do efeito desejado.

O segundo passo é buscar um veículo que seja adequado às condições específicas do paciente. Mais uma vez, o veículo pode ser feito sob medida. Por exemplo, pacientes cuja condição da pele é mais oleosa pedem veículos fisiologicamente compatíveis com esta condição. Pacientes que estão em tratamento de peeling necessitam que sejam amenizadas a irritação, a vermelhidão e, eventualmente, a sensação dolorosa inerente ao processo descamativo. Estes pacientes precisam usar cosméticos em seu dia a dia. E pode-se preparar para ele um cosmético cujo veículo possua ativos que amenizem a irritação e a vermelhidão.

Não menos importante, o terceiro passo é informar a classe médica, de modo científico e adequado, sobre as possibilidades e as potencialidades dos cosméticos de tratamento. Estas informações deverão ser transmitidas de modo simples, objetivo e cientificamente embasado. São elas: as características dos ativos, quais ativos podem ser associados entre si, as concentrações de uso, a disponibilidade de veículos diferenciados, e quaisquer outras informações que o farmacêutico considere importante para que o médico adquira confiança para a prescrição.

Ainda sobre este passo, uma oportunidade ainda muito pouco explorada, é oferecer produtos dermatológicos cosméticos manipulados que complementem o tratamento médico. Por exemplo, um dermatologista prescreve um peeling com ácido retinoico. A farmácia pode sugerir a este médico que prescreva preparações hidratantes, calmantes e refrescantes.

Para aqueles que ainda duvidam que isso seja possível, recentemente visitei um amigo dermatologista que me mostrou o folheto de uma indústria farmacêutica, no qual, em páginas lado a lado, são oferecidos um medicamento para peeling e um cosmético “profundamente hidratante.” O cosmético é fabricado por uma indústria cosmética que pertence ao mesmo grupo da indústria farmacêutica.

Atualmente, a indústria automobilística já oferece opções de “personalizar” parcialmente os carros. Talvez, no futuro, a indústria cosmética ofereça opções semelhantes à de automóveis. Mas, como a necessidade por cosméticos personalizados é presente, não há necessidade de esperar o futuro. Este já existe e se chama “farmácias com manipulação.”

Carlos Alberto Pacheco
Mercado por Carlos Alberto Pacheco

Biodiversidade no mapa de risco global de 2010

Em janeiro, foi divulgado o Relatório do World Economic Forum (WEF), que destacou os principais riscos que envolverão os negócios mundiais, no curto prazo.

O WEF é uma respeitada organização não governamental e internacional, que reúne diversos expoentes da sociedade com o intuito de elaborar um Relatório com base na leitura do mundo à nossa volta e em seus mais agravantes problemas. Anualmente, é divulgado um relatório com o mapa de risco. De acordo com os usuários do relatório, ao longo dos anos este vem apresentando expressiva assertividade em seu prognóstico.

Como o Relatório é feito? O mapa relaciona a probabilidade de ocorrência de um determinado risco versus a severidade do impacto econômico deste na sociedade. Quanto maior for a probabilidade do risco ocorrer, maior será a severidade do impacto e o custo do evento para a sociedade. A severidade é segmentada em faixas que vão de 2 a 10, de 10 a 50, de 50 a 250 bilhões de dólares, e de 250 bilhões a 1 trilhão de dólares, e maiores do que 1 trilhão de dólares. A probabilidade de ocorrência é classificada em faixas como: menor do que 1%, de 2 a 5%, de 5 a 10%, de 10 a 20% e acima de 20%.

Os riscos, por sua vez, são classificados em cinco diferentes categorias: Econômico, Geopolítico, Social, Tecnológico e Ambiental. Há critérios para a classificação de cada um dos riscos e para como dimensionar o custo dos seus impactos na sociedade, caso ocorram. Foram mapeados 36 diferentes riscos, entre os quais nove são de natureza ambiental.

Neste ano, dentre os riscos relacionados na categoria Ambiental, encontra-se apontado um que me chamou a atenção: “Perda da Biodiversidade”. O estudo define este risco como a “degradação da biodiversidade resultante da devastação de várias áreas de reservas florestais, marítimas e de outros biomas, com danos e consequências irreversíveis ao meio ambiente”. Nada mais brasileiro do que isso. Estima-se que haja perda de 3,3 a 7,5% do PIB mundial de 2008, por causa da desertificação de florestas e áreas biologicamente ativas.

Este risco foi classificado com probabilidade de ocorrência entre 5 e 10% e severidade de impacto para a sociedade com perda econômica entre 10 e 50 bilhões de dólares. Apenas para dimensionar o tamanho deste barulho, outros quatro riscos foram classificados na mesma faixa de probabilidade de ocorrência e impacto econômico: Poluição Atmosférica, Terrorismo Internacional, Proliferação de Armas Nucleares e Grandes Movimentos de Imigração.

O Relatório aponta para outra característica que vem se tornando significativa ao longo dos anos e que agora se configura como uma evidência muito clara, que é o aumento do Risco Sistêmico. A definição do termo, de acordo com o Relatório, é que risco sistêmico se traduz numa potencial perda ou dano para um sistema inteiro em contraste com uma perda para uma única parte deste. Riscos sistêmicos chamam a atenção pela fraca relação que as unidades de um sistema apresentam entre si, mas que, em virtude de rápidas mudanças, ganham sinergia.

Com base nesse conceito, o risco da perda da biodiversidade encontra uma relação sistêmica muito forte com dois riscos importantes - Doenças Crônicas e Desaquecimento da Economia Chinesa (menor que 6%) – além de outros 15 diferentes riscos.

O Relatório avança numa discussão profunda e interessante. É muito útil para as áreas de marketing e estratégia das empresas, que lutam com a inglória tarefa de prever o futuro e mitigar riscos.

No entanto, o importante é saber que o mercado cosmético tem se beneficiado dos apelos “natural” e “ecologicamente correto”, e de outros nomes que remetem à questão da biodiversidade. Mas este mercado tem exigido dos seus fornecedores que sustentem esses apelos? Não basta apenas o uso do produto natural, mas se deve saber como este é adquirido e como a cadeia relacionada à sua produção se sustenta.

Fechar os olhos para isso pode ser o mesmo que criar uma arma contra si mesmo, sob pena do natural deixar de existir ou ser relacionado com uma empresa que ajuda a diversificação mas não respeita o meio ambiente.

Denise Steiner
Temas Dermatológicos por Denise Steiner

O “velho” e bom ácido retinoico

A pele, o maior órgão do corpo humano, apresenta dois tipos de envelhecimento cutâneo: o intrínseco
e o fotoenvelhecimento.

O primeiro, naturalmente, ocorre em todos os órgãos do corpo. O segundo, mais intenso e evidente, acontece devido aos danos causados pela radiação ultravioleta.

O envelhecimento proveniente da idade é mais suave, lento e gradual, causando danos estéticos muito pequenos. Já o fotoenvelhecimento agride a superfície da pele, sendo responsável por modificações, como: rugas, engrossamento, manchas e câncer de pele.

Existem características especiais que diferenciam estes dois tipos de envelhecimento. No envelhecimento intrínseco, a textura da pele é lisa, homogênea e suave. Ocorre atrofia da epiderme e da derme, há menor número de manchas e as rugas são superficiais. No fotoenvelhecimento, a pele fica com a superfície áspera, nodular e espessada; ocorrem inúmeras manchas e aparecem rugas profundas e demarcadas.

Histologicamente, a característica mais marcante do envelhecimento cronológico é a atrofia e a retificação da epiderme, enquanto o fotoenvelhecimento é marcado por elastose. No envelhecimento intrínseco ocorre diminuição do número de melanócitos, enquanto os queratinócitos permanecem normais. Há também diminuição da quantidade de elastina e colágeno e a vascularização se mantém normal. No envelhecimento extrínseco, os queratinócitos se tornam displásicos (de desenvolvimento anormal), devido ao “fotodano”, e os melanócitos aumentam em número e distribuem irregularmente o pigmento. Ocorre o aparecimento da zona de grenz (faixa eosinofílica cicatricial), as fibras colágenas se desorganizam e as elásticas se transformam em massas amorfas (elastose), e os vasos mostram parede duplicada rodeada por infiltrado linfo-histiocitário, caracterizando a heliodermatite.

Há tratamentos já consagrados para esses problemas, como os realizados com retinoides, que agem principalmente controlando a proliferação e a diferenciação celular. Além disso, os retinoides previnem a perda e estimulam a formação de colágeno.

A habilidade do ácido retinoico, particularmente de todas as suas formas trans (tretinoína), em reverter algumas alterações do fotoenvelhecimento, já é reconhecida há aproximadamente 20 anos. A pele humana tratada com tretinoína mostra número e atividade aumentados de fibroblastos, atividade melanocítica reduzida e a rápida formação de uma zona subepidérmica de tecido conectivo com colágeno novo, filamentos de ancoragem e fibrilas. Nos estudos controlados iniciais de terapia tópica com tretinoína para danos solares, a melhora clínica e histológica era vista na pele da face tratada com creme de tretinoína a 0,05 ou 0,1%.

Os retinoides, em especial o ácido retinoico, têm capacidade de melhorar e compactar a camada córnea, proporcionando aspecto mais homogêneo à superfície da pele.

Havendo melhora da camada córnea, automaticamente ocorre diminuição da perda transepidérmica de água, melhorando a hidratação cutânea. A epiderme, responsável pela queratinização, também melhora sua troca e função. O melanócito é estimulado a distribuir melhor a melanina.

A ação da tretinoína nas manchas está relacionada à eliminação das camadas mais superficiais e também ao retorno de uma melhor distribuição de melanina.

A ação da tretinoína nos vasos sanguíneos promove angiogênese, e, nas fibras, estimula a neocolagênese, melhorando o aspecto cutâneo dos braços e das mãos.

A tretinoína tópica como tratamento para rosto, braços e mãos é interessante para preparar a pele para tratamentos específicos, como peelings e lasers. Em geral, há melhora da textura e da aparência da pele e ocorre seu clareamento, em cerca de um mês.

Outro benefício do tratamento com ácido retinoico é a melhora da tonicidade da parede dos vasos sanguíneos, o que evita o aparecimento de equimoses e manchas arroxeadas.

A tretionína pode provocar efeitos colaterais conhecidos como eritema, descamação e dolorimento. Sendo assim, é importante que o veículo propicie hidratação constante.

Concluímos, com o exemplo dos retinoides, que é importante manter tratamentos que utilizem ativos “velhos”, porém bons.

Dermeval de Carvalho
Toxicologia por Dermeval de Carvalho

Pele – abordagem cosmetotoxicologica

O tema “Pele - abordagem cosmetotoxicológica” exige exaustivo trabalho de pesquisa, protocolos bem-elaborados, resultados confiáveis, experiência profissional, integração multiprofissional e disciplinar, discussão regulatória e, sobretudo, muita dedicação. Não se trata de exceção a busca do saber.

Tradição não confere segurança

A busca de novos ingredientes e produtos cosméticos, com base nos quesitos acima formulados, exige a realização de rigoroso levantamento bibliográfico, providência que poderá evitar pressupostos resultados desagradáveis. Este exercício de gestão técnica, administrativa e de boas práticas de trabalho, muitas vezes tem ficado totalmente esquecido por parte do setor empresarial, especialmente dos emergentes (Int J Cosm Sci 24:217-224, 2002).

Pele e abordagem cosmetotoxicológica

O que diz a ciência sobre isso? Em ligeira passagem pela biologia da pele, fica evidente a presença de uma complexa estrutura que lhe confere inúmeras atividades fisiológicas (térmica, eletrolítica, hormonal, metabólica e imunológica), e que grande parte de sua vida é exposta às variações de temperatura, umidade, luz solar, xenobióticos ambientais e ocupacionais. Além disso, a pele tem o compromisso com a manutenção da homeostase. A pele, o maior órgão do corpo humano, tem cerca de 2 metros quadrados (em indivíduos adultos) e está integralmente relacionada à avaliação de segurança dos produtos cosméticos, pois representa a maior e a mais importante área de exposição a eles. A pele, seguramente, é a maior interface entre meio ambiente e corpo humano (Toxicology and Applied Toxicology 195:265-266, 2004).

O desenvolvimento médico-tecnológico, os consistentes projetos direcionados ao desenvolvimento de produtos biotecnológicos, o melhor conhecimento estrutura/atividade, os estímulos aos programas de Cosmetovigilância e melhor conhecimento da avaliação do risco, ao lado da maior expectativa e qualidade de vida do homem, constituem-se paradigmas obrigatórios na avaliação de segurança para os usuários de produtos cosméticos (European Molecular Biology 9(11):1073-1077, 2008).

A evolução da Cosmetotoxicologia tem propiciado calorosas discussões a respeito da segurança de alguns ingredientes cosméticos, a qual não está somente atrelada à ciência, mas também sujeita aos desencontros regulatórios.

Contudo, recente publicação afirmou que os ingredientes e os produtos cosméticos podem ser considerados seguros e que estes oferecem múltiplos benefícios à qualidade de vida dos seus usuários (Toxicology and Applied Pharmacology 2009, article in press).

Não basta apenas acontecer o crescimento científico. A formação de recursos humanos é extremamente importante, especialmente no que se refere às atribuições inerentes ao avaliador de segurança, já regulamentadas na Comunidade Europeia. O avaliador de segurança deve ter sólidos conhecimentos de toxicologia e avaliação do risco, navegar na web com destreza e possuir sólidos conhecimentos da legislação regulatória (Toxicology and Applied Pharmacology 2009, article in press).

As autoridades governamentais do Brasil e dos países do Mercosul devem pensar seriamente sobre o assunto a seguir: a regulamentação das atividades do avaliador de segurança.

Some-se a tudo isso uma boa forma para acompanhar, complementar e avaliar o desenvolvimento científico, com certa presteza e agilidade: recorrer aos bancos de dados e às publicações com veiculação em periódicos especializados, especialmente àqueles de alto impacto.

Utilizando-se a palavra-chave “skin care”, no período de 2006 a 2010, segundo foi apurado no banco de dados Embase (www.embase.com), ocorreram 5153 publicações. Este número cresce assustadoramente, chegando a 35212 assentos, quanto são combinadas as palavras skin/ageing/allergy/absorption. Segundo o PubMed (www.ncbi.nlm.gov/pubmed), usando-se essas mesmas palavras-chave são encontrados 23252 registros, sendo 4542 e 25908, respectivamente, trabalhos de revisão e textos completos. Estes dados justificam plenamente a vocação da revista Cosmetic & Toiletries tratar do assunto “pele e implicações toxicológicas”.

Comentamos as possíveis vias que dão acesso às ciências, suas facilidades e dificuldades; percorrê-las com insistência e frequente disciplina constituem o melhor caminho para o aprendizado.






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