Fundamentos da Cosmetologia - Produtos Infantis: Maquiagem


Luciana Amiralian, Claudia Regina Fernandes
Phisalia Produtos de Beleza Ltda., Osasco SP, Brasil

 

Desenvolvimento dos Produtos

 
 
 
 

 

 artigo publicado na revista Cosmetics & Toiletries Brasil - Mai/Jun 2017 Vol. 29 Nº 3  (pag 34 a 37)
A RDC 15/2015 da Anvisa que dispõe sobre os requisitos técnicos para a concessão de registro de produtos de higiene, cosmético pessoal e perfumes infantis, introduziu novas categorias de produtos. Nesta oportunidade estará sendo avaliada a categoria maquiagem que corresponde produtos para o rosto, região dos olhos e para as unhas.
 
 
Pele da criança
 
     A pele da criança difere da pele do adulto e necessita de cuidados únicos – é caracterizada como fina, frágil, sensível e imatura.A principal diferença entre a pele infantil e a pele adulta envolve a permeabilidade, a reatividade, a transpiração e a fotossensibilidade.
O desafio é manter saudável a integridade da barreira epidérmica da pele da criança.
     A pele, o maior órgão do corpo humano, é formada pela epiderme, pela derme e pelo tecido celular subcutâneo (Figura 1).
  A epiderme compreende o estrato córneo e as camadas granulosa, espinhosa e basal. A derme é composta de colágeno e elastina e abriga as terminações nervosas, vasos sanguíneos e linfáticos, glândulas sudoríparas e sebáceas. O tecido celular subcutâneo é composto de tecido conjuntivo  gorduroso.2
 
 
 
  A pele infantil tem o mesmo número de camadas que a de um adulto, mas a camada mais externa de sua epiderme é muito mais fina e as células são bem menos compactadas que as deste. A barreira cutânea da criança é diferente da dos adultos e, até os cinco ou seis anos de idade, a espessura e a quantidade de substâncias nessa barreira ainda não são totalmente usadas, o que torna a pele mais permeável.
 
  Na pele infantil, as glândulas sebáceas e sudoríparas ainda são menos ativas, e a camada hidrolipídica e o manto ácido protetor ainda são relativamente fracos. Isso significa que a função de barreira é mais comprometida na pele infantil e que esta está mais sujeita a alterações que a pele adulta. Entre o nascimento e a maturidade, a área de superfície da pele da criança aumenta e várias estruturas cutâneas sofrem alterações anatômicas e funcionais.1
 
 
Unha
 
Ao longo dos séculos, a unha tem representado um papel de destaque na sociedade. Unhas com boa aparência têm aspecto liso e brilhante e sua cutícula deve ser intacta e fina, praticamente imperceptível.
  A unha é uma lâmina epidérmica, queratinizada e que está presente na extremidade dos dedos (Figura 2). É uma placa de queratina dura, ligeiramente convexa, que está fixada em tecidos moles dos dedos das mãos e dos pés, e é tecnicamente conhecida
como lâmina ungueal. É formada por quatro camadas: matriz ungueal, lâmina ungueal (corpo da unha), dobras laterais e borda livre. É constituída por uma queratina dura chamada oniquina. A oniquina é uma proteína rica em enxofre, cistina e arginina, tem de 7% a 16% de água, além de possuir cálcio e ferro.
 
   Acredita-se que cerca de 80% da lâmina da unha sejam produzidos pela matriz, que produziria a queratina dura, e que os outros 20% da lâmina sejam produzidos pelo leito ungueal. Assim, a unha poderia ser formada simultaneamente no sentido da matriz para a ponta do dedo e no do leito para a superfície externa da unha.
   A morfogênese da unha se desenvolve durante a nona semana e é concluída até o final do segundo trimestre da gestação. No nascimento, a superfície dorsal da unha exibe sulcos distintos levemente oblíquos, que se tornam paralelos e desaparecem lentamente ao longo do tempo. Assim, a superfície da unha torna-se lisa. Em adultos, estima-se que as unhas das mãos cresçam 0,1 mm por dia e que as unhas dos pés cresçam 1 mm por mês. Para os bebês não há dados disponíveis semelhantes a estes.8

 

Desenvolvimento dos Produtos
 

  No desenvolvimento de produtos de maquiagem infantil, é necessário selecionar criteriosamente os insumos que serão utilizados, pois os ingredientes deverão ser apropriados e seguros para a finalidade de uso proposta. A formulação desses produtos inclui corantes e pigmentos, devendo-se estar atento à lista de substâncias corantes permitidas para uso em produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPPC) constante da RDC 44/2012, da Anvisa.
 
   Na RDC 44/2012 é citada a lista de corantes permitidos para uso em HPPC de acordo com seu campo de aplicação e seus nomes estão divididos em quatro colunas. São elas:
 
- Coluna 1: Substâncias corantes permitidas para uso em todos os tipos de produto.
- Coluna 2: Substâncias corantes permitidas para uso em todos os tipos de produto, exceto nos produtos que são aplicados na área dos olhos.
- Coluna 3: Substâncias corantes permitidas para serem utilizadas exclusivamente em produtos que não entram em contato com as mucosas, nas condições normais ou previsíveis de uso.
- Coluna 4: Substâncias corantes permitidas exclusivamente para uso em produtos que fiquem por um breve tempo em contato com a pele e os cabelos.
 
   Cabe ao formulador avaliar a toxicidade desses materiais, realizar seus estudos de segurança e testes de compatibilidade cutânea, ocular e oral, assim como utilizar pigmentos tratados, pois estes devem obedecer a critérios de impurezas máximas permitidas e estabelecidas pelos organismos internacionais de referência.
   No desenvolvimento de esmaltes para crianças, deve-se ter o cuidado de formular um produto que possa ser retirado facilmente com água. No mercado, existem bases prontas apropriadas para essa finalidade, às quais apenas os pigmentos e os conservantes devem ser incorporados.
   Outro ponto bastante importante é a escolha dos preservantes, que devem ser efetivos e não irritantes em relação à pele das crianças. Deve-se observar a RDC 29/2012, que cita os preservantes permitidos para uso em produtos de HPP, sua concentração máxima autorizada, suas limitações de uso e advertências sobre essas substâncias

 

Produtos para Maquiagem

 

Os produtos para maquiagem englobam as seguintes categorias:
 
- Batom/brilho labial: o uso dos produtos dessa categoria é permitido a partir dos 3 anos, devendo-se realizar teste de toxicidade
oral para os ingredientes da formulação e comprovação de ausência de irritabilidade/sensibilização cutânea. A indicação única desses produtos é colorir os lábios e eles não podem conter substâncias modificadoras de tonalidade dos lábios pelo contato com a saliva. Essa preparação cosmética é constituída de pigmentos, perfume ou aroma, emolientes, ceras naturais ou sintéticas. Entre as ceras mais utilizadas para dar dureza ao batom, estão as ceras de carnaúba, ozoquerita e candelila. Nos brilhos labiais, uma das matérias-primas mais utilizadas é o poli-isobuteno, que doa brilho e proporciona espalhabilidade e fixação do produto nos lábios. Muitos batons e brilhos labiais para adultos são incrementados com aditivos para promover hidratação, efeito long-lasting da cor, efeito mate, proteção UV, entre outros efeitos. Contudo, para os produtos destinados ao público infantil, a indicação única permitida para batons e brilhos labiais é a coloração labial, não sendo permitidos ainda apelos específicos.
 
- Blush/rouge: o uso dos produtos dessa categoria é permitido a partir dos 3 anos, devendo-se realizar teste de comprovação de ausência de irritabilidade/sensibilização cutânea. A indicação única para o uso desses produtos em crianças é colorir temporariamente a face. Essas preparações cosméticas podem ser apresentadas na forma de pó solto ou compactado e na forma
cremosa. Os principais componentes desses produtos são: talco, argilas, micas, estearato de zinco, nylon e pigmentos.
 
- Pó facial: o uso desse produto é permitido a partir dos 3 anos, devendo-se realizar teste de comprovação de ausência de irritabilidade/sensibilização cutânea. A indicação única do uso do produto em crianças é colorir temporariamente a face. Essa preparação cosmética pode ser apresentada na forma de pó solto ou compactado e é constituída de partículas de minerais, como
talco, carbonato de magnésio, estearato de magnésio, pigmentos, argilas, nylon e emolientes que agem como agentes aglutinantes.
 
- Sombra: o uso desse produto é permitido a partir dos 3 anos, devendo-se realizar teste de comprovação de ausência de irritabilidade/sensibilização cutânea. A indicação única do uso do produto em crianças é colorir temporariamente as pálpebras. Essa
preparação cosmética pode ser apresentada na forma de pó solto ou compactado e na forma cremosa. Os principais componentes
do produto são: talco, estearato de magnésio, estearato de zinco, pigmentos, argilas, nylon e emolientes.
 
- Esmalte para unhas: o uso desse produto é permitido a partir dos 5 anos, devendo-se realizar testes de comprovação de ausência de irritabilidade/sensibilização cutânea e de fotossensibilização. Também deve ser feita a avaliação da toxicidade oral dos ingredientes do produto. A indicação única de uso do produto é colorir as unhas e este deve ser facilmente removido com água e sabonete. Essa preparação cosmética é formulada à base de água, com um formador de filme, como o copolímero acrílico, e com um agente suspensor dos pigmentos e das pérolas.

 

Avaliação de Segurança

 

 
 Os produtos de maquiagem e os esmaltes podem causar sérias irritações na pele das crianças, caso não sejam desenvolvidos
com cuidados específicos.
 
   Os esmaltes, por exemplo, podem causar alergias no rosto e ao redor dos olhos, pois as mãos são frequentemente levadas a essas regiões. Por isso, há necessidade de essas preparações cosméticas não conterem solventes agressivos à pele e serem facilmente removidas com água e sabonete.
 
   Para produtos de maquiagem, há ainda a necessidade de realizar testes de comprovação de ausência de irritabilidade/ sensibilização cutânea e, para esmaltes, batons e brilhos labiais, também deve ser feito teste de avaliação da toxicidade oral dos
ingredientes da formulação.
 

 

Rotulagem

 

 
  As advertências de rotulagem para essas categorias estão descritas de maneira clara na RDC nº 15/2015 e devem ser atendidas
em sua totalidade.
  O formulador também deve atender à RDC nº 3/2012, que dispõe sobre o uso de fl avorizantes e fragrâncias nas formulações
desses produtos, e os componentes alergênicos devem ser citados em sua rotulagem.
 

Conclusão

 
O conhecimento das características da pele e das unhas das crianças auxilia o formulador a desenvolver produtos específicos para esse público e a selecionar ingredientes adequados e autorizados pela agência reguladora do setor de HPPC, a Anvisa.
 
  Nos casos de esmaltes e de maquiagem, produtos que terão contato com os olhos e as mucosas, requisitos essenciais são que tenham menor poder de fixação, sejam seguros no uso e sejam de fácil remoção. Formulações minimalistas são ideais porque contêm menor quantidade de pigmentos e aditivos. Recomenda-se ainda que as cores desenvolvidas para o público infantil sejam
mais suaves e em tons mais claros. Uma tendência em maquiagem que pode ser direcionada ao desenvolvimento de produtos infantis são as maquiagens minerais, formulações livres de componentes potencialmente irritantes, como fragrâncias, pigmentos sintéticos e preservantes. A maquiagem mineral é formulada com minerais micronizados e argilas e tem como vantagem uma textura leve, além de possuir vida útil longa por conter minérios em sua composição, que evitam a proliferação de bactérias.
 

 

Referências

 

1. Darmstadt GL, Dinulos JG. Neonatal skin care. Pediatric Clinics of North America 47:757-82, 2000
2. Lund C, Kuller J, Lane A et al. Neonatal skin care: evaluation of the AWHONN/NANN research-based practice project on knowledge and skin care practices, J Obstet Gynecol Neonatal Nurs 30:30, 2001
3. Barel AO, Paye M, Maibach HI.(2009). Handbook of Cosmetic Science and Technology. 3º edição, Informa Healthcare: New York,, 2009
4. Barata E. Cosméticos: Arte e Ciência. Lisboa, 1ª. ed, Lidel-edições técnicas: Lisboa, 2002
5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Requisitos técnicos para a concessão de registro de produtos infantis, RDC nº 15, de 24 de abril de 2015, publicada no DOU de 27/4/2015 e com posterior retifi cação em 6/5/2015
6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Listas de substâncias corantes permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, RDC 44/2012 de 9/8/2012, publicada no DOU de 10/8/2012
7. Boaventura G. Um pouco sobre a fi siologia das unhas. Disponível em: http://www.cosmeticaemfoco.com.br/2016/04/um-pouco-sobre-a-fi siologia-das-unhas.html Acesso em: 27/2/2017
8. Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP, Departamento de Dermatologia Pediátrica. Conversando com o pediatra, Cosméticos infantis: o que os pais devem saber? (atualizado jul/2015). Disponível em: http://www.pediatriaparafamilias.com.br/website/paginas/materias_gerais/materias_gerais.php?id=159&content=detalhe. Acesso:
22/3/2017
Luciana Amiralian é farmacêutica e sócia-diretora da Phisalia Produtos de Beleza, empresa em que também é responsável pelas áreas de pesquisa e desenvolvimento, inovação e controle de qualidade.
Claudia Regina Fernandes é química-industrial com especialização em Engenharia Cosmética e tem mais de 15 anos de experiência na área de pesquisa e desenvolvimento, assuntos regulatórios e controle de qualidade. Atua na empresa Phisalia Produtos de Beleza como supervisora da área de pesquisa e desenvolvimento.

 

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