Fundamentos da Cosmetologia - Produtos Infantis: Perfumes e Oral Care

 
 
Luciana Amiralian, Claudia Regina Fernandes
Phisalia Produtos de Beleza Ltda., Osasco SP, Brasil
 

Fisiologia da Pele Infantil

Cavidade Bucal

Desenvolvimento dos Produtos

Avaliação de Segurança

 
 

 

artigo publicado na revista Cosmetics & Toiletries Brasil - Jul/Ago 2017 Vol. 29 Nº 4  (pag 30 a 32)
 
 A pele do bebê e a da criança difere da pele do adulto e necessita de cuidados únicos, sendo caracterizada como fina, frágil, sensível e imatura. A principal diferença entre a pele infantil e a adulta envolve a permeabilidade, a reatividade, a transpiração e a fotossensibilidade, e o desafi o é manter saudável a integridade dessa barreira epidérmica. Para isso, devem-se evitar algumas condições desfavoráveis, como fricção, desidratação, alteração da flora bacteriana cutânea e exposição à luz solar.
 

Fisiologia da Pele Infantil

   A pele, o maior órgão do corpo humano, é formada pela epiderme, pela derme e pelo tecido celular subcutâneo1 (Figura 1).
 
A epiderme compreende o estrato córneo e as camadas granulosa, espinhosa e basal. A derme é composta de colágeno e
elastina, e abriga terminações nervosas, vasos sanguíneos, vasos linfáticos, glândulas sudoríparas e glândulas sebáceas. O
tecido celular subcutâneo é composto de tecido conjuntivo gorduroso.2
 
 
Entre as funções da pele, a mais importante é sua ação como barreira entre o meio interno e o ambiente, prevenindo a desidratação, protegendo-a contra traumas e fazendo sua termorregulação.2
 
 
Entre o nascimento e a maturidade, a área de superfície da pele da criança aumenta e várias estruturas cutâneas sofrem alterações anatômicas e funcionais.1
 
A pele infantil apresenta facilidade de descamação e maior perda de água que a adulta, pois as células estão menos coesas entre si, e possui menor resistência a agentes externos, o que explica sua textura ser diferente da pele de um adulto.

Cavidade Bucal

   Na infância, a cavidade bucal pode apresentar diversos fenômenos fisiológicos, ou de alteração de desenvolvimento, ou patogenias. Dessa forma, essa cavidade torna-se um órgão de enorme complexidade e de cuidados especiais6(Figura 2).
Os primeiros dentes surgem entre os 6-8 meses de vida. Até os 2,5-3 anos de idade surgem os 20 dentes temporários e a mudança permanente dos dentes dá-se normalmente em duas fases: entre os 6-8 anos e entre os 10-12 anos.8
 
 
   O cuidado com a saúde oral infantil deve ser iniciado no período pré-natal, fornecendo informações adequadas aos futuros pais e
sensibilizando-os sobre a importância e o impacto de uma boa saúde oral.
 
 
   Apesar de haver questionamentos sobre a necessidade da limpeza antes do irrompimento dental, a maioria dos autores acredita que essa limpeza favorece o estabelecimento de uma microbiota saudável para a chegada dos primeiros dentes, além de motivar a criança a ter bons hábitos de higiene.
 
 
   A realização da higiene bucal tem por finalidade a retirada de restos alimentares e a manutenção de uma cavidade oral saudável,
obtendo-se assim condições para um ótimo crescimento, desenvolvimento e funcionamento dos dentes.

Desenvolvimento dos Produtos

   No desenvolvimento de produtos infantis, é necessário selecionar criteriosamente os insumos que serão utilizados. Os ingredientes
deverão ser apropriados e seguros para a finalidade de uso proposta. A RDC nº 15/2015 menciona inclusive o risco de casos de ingestão acidental de produtos.
 
   Cabe ao formulador avaliar a toxicidade desses materiais, seus estudos de segurança e seus testes de compatibilidade cutânea e oral, assim como realizar testes de bancada para a comprovação de sua estabilidade físico-química e de sua compatibilidade com a embalagem e avaliar o sensorial do produto quando em uso.
 
Produtos para Oral Care
  Os produtos para oral care englobam as seguintes categorias:
- Dentifrício com fl úor: pode ser utilizado por todas as faixas etárias, conforme está descrito na RDC nº 15/2015. São encontrados na forma de gel ou creme. Os principais componentes da formulação do gel dental são: umectantes (sorbitol, glicerina, polietilenoglicol), tensoativos (lauril éter sulfato de sódio, glicosídeos,sarcosinatos), espessantes (CMC, sílica), aromatizantes, edulcorantes (sacarina). Como o carbonato de cálcio tem a função de dar abrasividade aos cremes dentais, deve ser usado na menor concentração possível nos cremes dentais infantis. Os ativos anticárie utilizados mais comumente são o fluoreto de sódio e
o monofluorfosfato de sódio. Contudo, outros ativos também podem ser utilizados, como o xilitol, que possui propriedade
anticárie. A concentração de flúor a ser utilizada pode variar, não havendo limitações impostas pela legislação. Pesquisas realizadas
indicam que concentrações entre 500 ppm e 1.100 ppm de flúor são eficazes na prevenção anticárie.10
   Os dentifrícios com flúor em forma de gel devem ter pH na faixa de 6,0-7,0 e naqueles em forma de creme o pH deve estar faixa de 9,0-10,2.
 
   - Dentifrício sem flúor: pode ser utilizado por todas as faixas etárias, conforme está descrito na RDC nº 15/2015. Geralmente,
os dentifrícios sem flúor são em forma de gel e direcionados à higiene bucal dos bebês, e o ativo mais comumente utilizado
nesses produtos é o xilitol.
   Os dentifrícios sem flúor devem ter pH na faixa de 6,0-7,0.
 
- Enxaguatório com ação antisséptica: pode ser utilizado a partir de 6 anos de idade, conforme está descrito na RDC nº
15/2015. Antes dos 6 anos, as crianças ainda não desenvolveram o controle da deglutição. Esse enxaguatório, geralmente encontrado na forma líquida, é composto de água desmineralizada, sorbitol, citrato de sódio, sacarina, tensoativo e ativo antisséptico,
como óleos essenciais. Tem como ativo anticárie o fluoreto de sódio, além de outros ativos, como o xilitol. Destaca-se ainda a
proibição do uso de álcool etílico nesse tipo de produto.
   Os enxaguatórios com ação antisséptica devem ter pH na faixa de 6,0-7,0.
 
- Enxaguatório sem ação antisséptica: pode ser utilizado a partir de 6 anos de idade, conforme está descrito na RDC nº
15/2015. Geralmente é encontrado na forma líquida e é composto de água desmineralizada, sorbitol, citrato de sódio, sacarina e
tensoativo. Tem como ativo anticárie o fl uoreto de sódio, além de outros ativos, como o xilitol.
Os enxaguatórios sem ação antisséptica devem ter pH na faixa de 6,0-7,0.
 
Produtos para Perfumação
   - Água de colônia: é um tipo mais suave de “perfume”. Sua formulação geralmente é à base de água, composta de fragrância,
conservante, agente quelante e solubilizante. Não há limitação, na legislação, para a concentração de fragrância.
   A água de colônia deve ter pH na faixa de 6,0-7,0.
 
   - Perfume: é uma mistura de álcool etílico, água e fragrância.
   A água de colônia e o perfume podem ser utilizados por todas as faixas etárias, conforme está descrito na RDC nº 15/2015.

Avaliação de Segurança

   Para os produtos infantis, há necessidade de comprovar que eles não causam irritação e/ou sensibilização.
   Dependendo da categoria do produto, é necessário realizar testes específicos de fotossensibilização e testes exigidos em
legislação específica. Para a categoria Água de colônia e Perfume é necessário apresentar teste de ausência de irritabilidade/
sensibilização.
 
   Para a categoria Oral Care é necessário apresentar teste de comprovação da ausência de irritabilidade na mucosa oral e para
os enxaguatórios há a restrição da proibição de uso de álcool nas suas formulações.
   Os testes de comprovação e os estudos de compatibilidade ou estudos de aceitabilidade cutânea e oral são realizados em
adultos, embora o uso seja infantil. Após essa avaliação e a aprovação dos produtos, eles podem ser avaliados pelo público-alvo.
 
  Outro ponto importante é o tipo de embalagem utilizada. Por exemplo, para uma água de colônia ou para um perfume para
bebês, recomenda-se que a embalagem apresente tampa de rosca ou flip top. Isso evita o uso de spray e, assim, que o produto seja
inalado ou tenha contato com os olhos do bebê.

Rotulagem

   Os dizeres de rotulagem devem atender, além do que está estabelecido na RDC nº 15/2015, às demais resoluções pertinentes
sobre rotulagem específica de alguma categoria.
   A embalagem deve trazer segurança em seu uso, ser isenta de partes contundentes, de partes que possam ser facilmente facilmente destacadas ou engolidas e de constituintes tóxicos.5
   Cada categoria de produto tem sua advertência específica de rotulagem, que está descrita na RDC nº 15/2015.
 
   Para a categoria Dentifrício com Flúor, as advertências de rotulagem são: “Não ingerir; Até 6 anos usar quantidade do tamanho
de uma ervilha, com supervisão de um adulto durante a escovação para minimizar a deglutição; Se estiver ingerindo flúor
proveniente de outras fontes, consultar o pediatra ou dentista;Deve ser aplicado por adulto ou sob sua supervisão”.
Para a categoria Dentifrício sem Flúor, as advertências de rotulagem são: “Não ingerir; Deve ser aplicado por adulto ou sob sua supervisão”.
 
   Para a categoria Enxaguatório Bucal com Flúor e sem Flúor, as advertências de rotulagem são: “Não usar em crianças menores
de 6 anos; Usar com a supervisão de um adulto; Não ingerir; Usar conforme orientação do dentista”.
 
   Para a categoria Água de Colônia e Perfume, as advertências de rotulagem são: “Deve ser aplicado por adulto ou com supervisão de adulto; Para os produtos contendo álcool inserir a frase: Inflamável; Em caso de irritação, suspenda o uso e procure um médico”.

Conclusão

 
   De modo geral, o cosmético infantil visa o bem-estar da criança e favorecer sua saúde, devendo ser considerada, no desenvolvimento desse produto, a biologia da pele infantil, que está em formação e em processo de amadurecimento.
 

Referências

1. Darmstadt GL, Dinulos JG. Neonatal skin care. Pediatric Clinics of North America 47(8):757-82, 2000
2. Lund C, Kuller J, Lane A et al. Neonatal skin care: evaluation of the AWHONN/NANN research-based practice project on knowledge and skin care practices, J Obstet Gynecol Neonatal Nurs 30:30, 2001
3. Barel AO, Paye M, Maibach HI. Handbook of cosmetic science and technology, 3º ed, Informa Healthcare, New York, 2009
4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Requisitos técnicos para a concessão de registro de produtos infantis, RDC nº
15, de 24 de abril de 2015, publicada no DOU de 27/4/2015 e com posterior retifi cação em 6/5/2015
5. Dell’Orto GBC, Freitas LP, Finocchio LL, Simão NR, Ramos TM, Brandão MBF. Manifestações bucais de doenças infecciosas em crianças – diagnóstico e tratamento. Disponível em: www.pergamum.univale. br/pergamum/tcc/manifestaocesbucaisdedoencasinfecciosasemcrian c%CC%A7adiagnosticoetratamento.pdf. Acesso em: 22/5/2017
6. Valentim C. Condições patológicas da cavidade bucal na infância. In: Corrêa MSNP (Org.), Odontopediatria na primeira infância, Edit. Santos, São Paulo, 1998
7. Cavidade bucal. Disponível em: https://pt.slideshare.net/vitubio/ sistema-digestivo 32775459. Acesso em: 31/5/2017
8. Costa ALM, Ferreira LP. Saúde oral infantil: uma abordagem preventiva. Disponível em: http://rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/
view/10246. Acesso em: 22/5/2017
9. Sistema tegumentar. Disponível em: www.auladeanatomia.com/ novosite/sistemas/sistema-tegumentar. Acesso em: 31/5/2017
10. Gomes APM, Muller CE, Sarmento LC, Lopes SO, Gomes AMM. Qual dentifrício indicar para crianças na primeira infância? Disponível em: www.abodontopediatria.org.br/QUALDENTIFRiCIOINDICARPARACRIANcASNAPRIMEIRAINFaNCIA. pdf. Acesso em:22/06/2017
Luciana Amiralian é farmacêutica e sócia-diretora da Phisalia Produtos de Beleza, empresa em que também é responsável pelas áreas de Pesquisa e Desenvolvimento, Inovação e Controle de Qualidade.
Claudia Regina Fernandes é química-industrial com especialização em Engenharia Cosmética e tem mais de 15 anos de experiência nas áreas de Pesquisa e Desenvolvimento, Assuntos Regulatórios e Controle de Qualidade. Atua na empresa Phisalia Produtos de Beleza como supervisora da área de Pesquisa e Desenvolvimento.

 

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